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Tecnologia

Por que aprender algo novo depois de um tempo parece impossível?

Aprender coisas novas, mesmo que não pareça, faz parte do cotidiano de todos. Se você prestar atenção o suficiente, vai perceber a quantidade de pequenas e grandes coisas que entram para o seu arsenal de conhecimento todos os dias.

Entre as coisas que aprendemos quase sem querer, simplesmente por estarmos no lugar certo e na hora certa, e as coisas nas quais nos dedicamos para compreender, como estudos para faculdade ou técnicas novas para usar no trabalho, sem dúvida, as que geram mais estresse vem do segundo caso.

A pressão por aprender ou dominar um novo assunto, por acabar trabalhando contra o objetivo primário de aprendizado. Aliviar essa carga emocional é essencial para mover-se em direção do objetivo, e por vezes, tudo que precisamos, é um caminho mais tranquilo para aprender as coisas, tendo a certeza que não vamos quebrar nada de importante pelo caminho.

Quanto mais queremos dar passos firmes, mais inseguros ficamos. Paradoxal.

Um desafio para o aprendizado

Há alguns dias me desafiei a aprender algo novo, relacionado a tecnologia, com o único objetivo de averiguar quanto tempo eu levaria para sair do zero, a algo pelo menos básico.

Aprender algo novo
Um suporte para Smartphone feita através de uma impressão 3D

Como alguém que se interessa por impressão 3D, é natural em algum momento desejar fazer os seus próprios modelos para imprimir. Isso adiciona um certo nível de pessoalidade a cada obra, além de, muitas vezes, permitir resolver algum problema muito particular.

Naturalmente, o primeiro passo foi perguntar: Como se cria um modelo 3D para impressão com as medidas corretas?

A resposta curta: Usando um software de CAD (computer-aided design) .

A resposta longa: Bom, meu jovem, bem-vindo ao mundo da engenharia!

Onde eu começo?

Os primeiros passos são cruciais no processo de aprendizado de qualquer coisa. São eles que vão definir, muitas vezes, o quão motivado você vai continuar durante todo o processo.

Se você racionalizar o assunto, considerando algo que domine hoje em dia, sabe que, no fundo, levou muitos anos para se especializar “em preencha o espaço em branco com qualquer atividade”. Isso pode ser mais problemático do que parece, especialmente se tiver o hábito de “saber o que está fazendo”.

Se você quase sempre “sabe o que está fazendo” e está nessa condição há muitos anos, pode ser que se sinta desconfortável ao voltar ao status de aprendiz, mesmo que por pouco tempo.

Eu não sabia, virtualmente, nada de CAD! Admitir ignorância é um dos primeiros passos para realmente aprender.

Após fazer algumas pesquisas e ver alguns vídeos sobre o assunto, decidi que gostaria de usar um software chamado FreeCAD para tentar fazer alguns dos meus modelos.

aprendendo
Fazendo algumas aulas iniciais de CAD

O FreeCAD é um software open source de CAD, compatível com todos os sistemas operacionais mais populares, que, em versões recentes, ficou ainda mais poderoso e cheio de recursos. É uma ferramenta de engenharia generalista, que pode ser usada para a criação de modelos destinados à impressão 3D.

Afirmar que ele é a melhor opção para criar desenhos customizados para impressão 3D pode ser um exagero (sou iniciante ainda, lembra?), mas não me pareceu tão difícil, e depois de algumas instruções básicas, comecei a entender alguns conceitos que, pelo que pude perceber, estão presentes todos os softwares de CAD.

Conhecimento de base é sempre importante, por permitir alterar o caminho de estudos e ferramentas com maior facilidade.

O jeito infantil de aprender.

É comum que, uma vez adultos, comecemos a tratar a forma das crianças verem o mundo como algo “bobo”. A própria palavra “infantil” acaba tendo dois sentidos depois de alguns anos, ela designa um período específico da vida, mas também pode indicar algo “imaturo” e que não tem uma conotação positiva.

super nintendo
Lembra como você passou daquela fase difícil?

No caso do aprendizado, no entanto, tenho uma objeção.

Aprender “da forma infantil” é, em um muitos casos, um excelente caminho, especialmente se não tiver pressa para dominar e se tratar de um assunto que você não tem experiência prévia.

Por algum motivo, após adultos, relutamos em nos comparar com crianças em qualquer circunstância, porém, isso pode ser um equívoco em alguns casos.

Um ótimo exemplo é a linguagem. Existe uma grande chance de você ser um falante nativo de português, mas como você aprendeu a sua língua nativa? Nunca conheci um brasileiro que aprendeu a falar português fazendo um curso, apesar de reconhecer que, por vezes, não faria nenhum mal.

Aprendemos o nosso idioma nativo por pura e simples repetição, aprendemos através do feedback constante dos nossos pais e de pessoas próximas Esse processo de repetição e feedback aconteceu em todas às vezes que você, ainda criança, falou a palavra “elefante” ao invés de “efelante”, por exemplo. Nesses casos, alguém te corrigiu, possivelmente os seus pais, e após falar repetidas vezes, o “efelante” soou como deveria.

O mesmo aconteceu em períodos escolares de alfabetização, você escreveu errado diversas vezes até acertar. Se não tivesse errado, não teria aprendido.

Talvez o principal problema seja que na vida adulta, ou em algum momento da juventude, começamos a encarrar o erro como uma gafe a ser evitada a todo custo. Algo embaraçoso, a ponto de considerarmos que é melhor não tentar, do que tentar e errar. Se você internalizar esse conceito, pode ter um efeito catastrófico ao seu aprendizado ao longo dos anos.

O mais bizarro dessa percepção, é que mesmo quando estamos sozinhos, tentando aprender algo novo, somos extremamente duros em relação ao nosso desempenho, e não nos permitimos entrar nesse ciclo de repetição e feedback que, no passado, já foi capaz de nos ensinar tantas coisas.

“Ah, não deu certo… vai ver que não é pra mim…”

Será que vale mesmo a pena deixar de aprender algo só por que “não é pra mim”? Quem é que define “o que é pra você”?

Outra comparação válida está diretamente ligada aos vídeo games, especialmente os mais antigos. Se você tiver idade o suficiente para ter jogado os consoles de 16 bits ou anteriores, talvez lembre como esses jogos costumavam funcionar.

NES Super Mario Bros. 1985
Super Mario BROS – 1985

Lembro de conseguir terminar o primeiro jogo do “Super Mario” de NES algumas vezes na minha infância, não coincidentemente, o método de aprendizado estimulado por esse tipo de jogo, é muito similar ao conceito de repetição e feedback. Bastava andar pela fase aprendendo onde estavam os obstáculos, errar e repetir o processo quantas vezes fosse necessário até aprender o melhor caminho.

Minha mente adulta também ficou acostumada à eliminação da frustração presente em diversos jogos modernos. Toda vez que tento jogar games antigos, depois que a nostalgia passa, o que resta é a frustração de errar e tentar novamente. Tenho completa ciência de que isso precisa ser diferente, é uma questão até mesmo de saúde mental.

Modelando a Xolofompila

Repetindo os estudos com o FreeCAD todos os dias, errando e pesquisando sobre os meus erros e, principalmente, focando em progresso e não em perfeitação, em alguns dias melhorei. Como se trata de um mero hobby, não dediquei mais do que 1 hora em cada sessão de estudo, por vezes menos.

Saí do completo zero em CAD para alguém que hoje sabe, bom… para ser honesto, talvez um pouco mais do que zero só… mas hein, isso é bom! 👍

Compartilho com você um dos meus primeiros desenhos no FreeCAD, que carinhosamente chamo de “Xolofompila”, em homenagem ao seriado “Chaves”, que fez parte da minha infância.

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Senhoras e senhores: Xolofompila.

No seriado, a palavra “Xolofompila” foi usada para designar algo que não era realmente nada, no máximo, um desenho abstrato. Em outras palavras, “eu desenhei um negócio aqui”, uma “Xolofompila perfeita”.

Apesar do desenho em si não realmente significar algo e não ter utilidade — a menos que você considere ele um peso de papel — ele me ajudou a treinar conceitos básicos que, tenho certeza, poderiam ser usados em desenhos mais sérios.

Criando “um negócio” desses, aprendi sobre a criação de formas geométricas no software, criar algumas curvas, criar modelos com medidas precisas, aprendi a fazer a extrusão de peças e a importância de criar linhas de contenção.

Caso não saiba a primeira coisa sobre CAD, talvez nenhuma dessas palavras signifique alguma coisa para você, e tudo bem. A parte interessante, é que até pouco tempo, nenhuma dessas palavras significava nada para mim também, mas ao me deixar aprender como uma criança, agora elas significam.

Ainda é divertido

Em algum momento, não sei exatamente quando — talvez entre um boleto e outro — deixamos de lado a ideia de que aprender coisas, só por aprender, é divertido. Por algum motivo, aprender algo, colocar esforço para desenvolver um novo conhecimento, se torna associado ao trabalho, e por vezes, trabalho é associado com desprazer. Uma pena.

Eu poderia aconselhar você a fazer o mesmo em relação ao seu aprendizado, não sobre CAD, necessariamente, mas sobre qualquer coisa que tenha interesse, porém, as pessoas são diferentes e pode ser que você não tire muita satisfação da ação de descobrir algo novo.

Considerando isso, só tenho a minha experiência para compartilhar. Adorei o experimento de “ver quanto tempo eu levo para aprender o mínimo de algo” e pretendo repetir algumas vezes. Além de conhecer algo que posso facilmente categorizar como “legal”, desenvolvi uma admiração maior pelos nossos amigos engenheiros.

Nunca se sabe onde um novo interesse vai te levar, há praticamente 14 anos eu escrevia as primeiras linhas nesse site, e definitivamente, não sabia o que estava fazendo.

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Criador do blog e canal Diolinux, alguém que acredita em liberdade de escolha e é apaixonado por música e tecnologia.
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