O cenário atual dos jogos para PC é um território fragmentado. Temos a Steam como a rainha indiscutível, a Epic Games distribuindo títulos grátis toda semana, a GOG mantendo viva a chama dos jogos sem DRM, sem contar as lojas da Ubisoft, EA e outras tantas plataformas que assustam quem joga pelo Linux. Cada uma exige seu próprio cliente, seus próprios logins e sua própria fatia de recursos do sistema. Nesse contexto, a movimentação da Microsoft para transformar o Xbox App em um hub unificado não é apenas ambiciosa – pode ser a mudança que os jogadores precisam, mesmo que ainda não saibam.
A estratégia da Microsoft ganhou contornos mais definidos quando um mockup vazado revelou algo inesperado: um botão da Steam integrado diretamente na interface do Xbox App. A imagem, rapidamente removida após a publicação do The Verge, mostrava uma visão futurista onde jogos de diferentes plataformas coexistiam pacificamente no mesmo ecossistema. Esse “acidente” revelador coincide com rumores de que a empresa estaria trabalhando em uma funcionalidade para listar todos os jogos instalados no PC, independentemente de sua origem.


A jogada da Microsoft vai muito além de simples conveniência para os jogadores. Com o crescimento do Game Pass – que já ultrapassou 34 milhões de assinantes – e a expansão agressiva do xCloud, a empresa está claramente mirando na consolidação do Xbox como plataforma, não como hardware. Phil Spencer, o visionário por trás dessa estratégia, tem sido vocal sobre seu desejo de “quebrar as barreiras dos jardins murados” do mundo dos jogos.
Durante a GDC 2025, a Microsoft revelou dados impressionantes: jogos com suporte ao programa Xbox Play Anywhere – que permite comprar uma vez e jogar tanto no console quanto no PC – registram 20% mais tempo de jogo. Além disso, a iniciativa “Stream Your Own Game”, que permite assinantes do Game Pass Ultimate transmitirem jogos comprados fora do catálogo, já está mostrando resultados promissores em mercados emergentes como Brasil e México.
O Desafio da fragmentação
A realidade atual dos jogos para PC é paradoxal. Por um lado, nunca tivemos tantas opções de onde comprar nossos jogos. Por outro, a experiência se tornou absurdamente fragmentada. Quem nunca se viu navegando entre três ou quatro launchers diferentes apenas para encontrar aquele jogo específico que queria jogar? E pior: quem nunca se deparou com a frustração de ter amigos em plataformas diferentes, impossibilitados de jogar juntos devido a incompatibilidades entre clientes?
Nesse aspecto, a iniciativa da Microsoft poderia resolver dois problemas de uma vez. Primeiro, a conveniência de ter todos os jogos em um só lugar. Segundo, e talvez mais importante, a possibilidade de padronizar recursos como conquistas, salvamento em nuvem e até mesmo partidas cruzadas entre diferentes plataformas. Imagine poder convidar um amigo que possui o jogo na Steam enquanto você o tem no Game Pass, sem precisar se preocupar com compatibilidade.
É ingênuo pensar que a Valve ficaria impassível diante dessa movimentação. A Steam responde por cerca de 75% do mercado de jogos digitais para PC, e a empresa tem investido pesado em iniciativas como o Steam Deck e melhorias no SteamOS.
O grande diferencial da Steam, no entanto, sempre foi sua comunidade robusta – desde o mercado de itens até os fóruns de discussão e o sistema de avaliações. São features que a Microsoft teria dificuldade em replicar, mesmo com todo o peso do ecossistema Xbox por trás. Não seria surpreendente ver a Valve reagir com novas funcionalidades sociais ou até mesmo vantagens exclusivas para manter sua base de usuários fiel.
Obstáculos técnicos
Apesar do potencial revolucionário, a estrada para um hub universal de jogos está cheia de obstáculos. Do ponto de vista técnico, integrar jogos de diferentes plataformas requer acesso a APIs que nem sempre estão disponíveis publicamente. Algumas lojas podem resistir à ideia de “emprestar” seus jogos para um concorrente, mesmo que indireto.
Há também questões políticas envolvidas. A Epic Games, por exemplo, tem investido pesado em exclusivos temporários para sua loja – seria do interesse deles permitir que esses mesmos jogos aparecessem proeminentemente no Xbox App? E a Ubisoft, que recentemente trouxe seus jogos de volta à Steam após anos de exclusividade em sua própria plataforma, estaria disposta a abrir mão desse controle?
Para o consumidor final, a perspectiva é empolgante. Ter todos os jogos em um só lugar significaria menos tempo gerenciando clientes diferentes e mais tempo jogando. Recursos como sincronização de saves entre plataformas e partidas cruzadas universais poderiam finalmente se tornar padrão, não exceção.
No entanto, há razões para cautela. A Microsoft Store tem histórico problemático com desempenho e atualizações, e muitos jogadores ainda se lembram dos problemas com a entrega de jogos da Xbox Game Studios no PC. Se o Xbox App quiser realmente se tornar o hub definitivo, precisará oferecer uma experiência tão estável e responsiva quanto a Steam.
Fique por dentro das principais notícias da semana sobre tecnologia e Linux: assine nossa newsletter!