O cinema independente tem o poder de surpreender, e Flow, o filme de animação letão que conquistou o Oscar de Melhor Animação em 2025, é a prova viva disso. Dirigido por Gints Zilbalodis, o filme emocionou plateias ao redor do mundo e também mostrou ser possível criar obras-primas com ferramentas acessíveis e de código aberto. Sim, estamos falando do Blender, o software gratuito que se tornou o coração da produção deste filme que já é considerado um marco na história do cinema.
Sem palavras, mas cheio de significado
Flow é uma jornada visual e emocional que acompanha um gato cinza e seus companheiros improváveis — um cachorro, uma capivara, um lêmure e uma ave secretária — em um mundo pós-apocalíptico dominado por enchentes. Sem diálogos, o filme se apoia na música, nos sons e na animação para contar uma história universal sobre sobrevivência, amizade e resiliência.
A escolha de não usar palavras foi intencional. Zilbalodis explicou em entrevista ao blog do Blender: “Acho que você pode expressar muito mais sem palavras. Algumas dessas emoções e ideias eu não conseguiria articular com palavras, mas com música, som, movimento e edição, posso dizer muito mais.” Essa abordagem minimalista, aliada à estética única do filme, conquistou não só o público, mas também a crítica especializada.

Blender, a ferramenta que transformou o sonho em realidade
O que torna Flow ainda mais especial é o fato de ter sido produzido inteiramente com o Blender, um software gratuito e de código aberto. Zilbalodis, que já havia trabalhado com outras ferramentas como o Maya, decidiu migrar para o Blender em 2019, atraído pelo EEVEE, o motor de renderização em tempo real.
“A velocidade é muito importante para mim — não apenas na renderização, mas também no trabalho com arquivos, na configuração de iluminação e na criação do visual geral. Gosto de trabalhar em múltiplos aspectos ao mesmo tempo; por exemplo, ao configurar a câmera, também preciso das luzes no lugar, porque a iluminação influencia o posicionamento da câmera e a aparência da cena. É por isso que o EEVEE foi tão atraente para mim”, explicou Zilbalodis.
O uso do Blender permitiu que a equipe, composta por apenas 15 a 20 pessoas em seu auge, criasse um filme com uma qualidade visual impressionante. A renderização foi feita inteiramente no computador pessoal de Zilbalodis, sem a necessidade de uma fazenda de renderização. Cada quadro levou entre 0,5 e 10 segundos para ser renderizado em 4K — um feito notável para um filme de animação.

A produção de Flow começou em 2019 e levou cinco anos e meio para ser concluída. Nos primeiros anos, Zilbalodis trabalhou sozinho escrevendo o roteiro, aprendendo o Blender e buscando financiamento. Em 2020, com o apoio do National Film Centre da Letônia e outros parceiros, ele montou uma pequena equipe em um espaço de coworking, onde desenvolveu o filme em colaboração com artistas e desenvolvedores.
Um dos destaques da produção foi o trabalho com simulações de água. Mārtiņš Upītis, especialista em simulações de fluidos, desenvolveu um add-on para o Blender que permitiu criar os efeitos de água de forma realista e estilizada. Enquanto isso, Konstantīns Višņevskis trabalhou em shaders para pelos e penas, além da criação de esqueletos e modelagem de personagens.

Em 2022, produtoras francesas e belgas se juntaram ao projeto, trazendo expertise em animação de personagens e som. Essa colaboração internacional fez a diferença para finalizar filme, que estreou no Festival de Cannes em 2024, na seção Un Certain Regard.
Um marco para o cinema letão
Flow não só conquistou o Oscar, mas também levou para casa um Globo de Ouro, um César e vários prêmios no Festival de Annecy. Além disso, o filme se tornou o maior sucesso de bilheteria da história da Letônia, superando todas as expectativas.
Para Zilbalodis, o sucesso de Flow é uma prova do potencial criativo de países menores e do poder da colaboração internacional. “Este projeto é um testemunho do potencial criativo de um país pequeno e do poder do cinema independente”, disse Dita Rietuma, diretora do National Film Centre da Letônia.
Flow é um exemplo inspirador do que pode ser alcançado com paixão, criatividade e as ferramentas certas. Zilbalodis já está trabalhando em seu próximo projeto, e adivinhem? Ele continuará usando o Blender.
“Acho que, se você está trabalhando em um projeto independente, não deve tentar copiar o que os grandes estúdios fazem. Em vez disso, deve desenvolver um fluxo de trabalho que funcione melhor para você e sua equipe”, refletiu o diretor.
Com Flow, Zilbalodis não só colocou a Letônia no mapa do cinema mundial, mas também mostrou que, às vezes, as melhores histórias são contadas com simplicidade, determinação, colaboração e muita criatividade.
Como disse o próprio Zilbalodis: “Se eu soubesse o quão difícil seria, talvez nunca tivesse começado. Mas, como não sabia, simplesmente mergulhei e fui descobrindo as coisas no caminho.” Que bela prova de que aprender coisas novas, mesmo que seja desafiador, pode revolucionar nossa vida!