Munique de volta para os braços do Linux?

Munique, Linux

Um dos casos mais famosos que engloba o mundo open source, é a adoção pela administração pública da cidade de Munique na Alemanha, onde em 2003 começou a migração do até então Windows NT 4.0 para uma solução baseada em Linux. Essa solução foi chamada de LiMux.

Uma breve história do LiMux

O principal motivo como já mencionado, era a substituição do Windows NT 4.0 para alguma solução mais moderna na época (2003), e depois de um relatório encomendado pelo Conselho Municipal de Munique (Munich City Council / Stadtrat), foram apresentadas duas alternativas: o Windows XP ou o Linux. O Último sendo o escolhido.

Mas, somente no começo de  2006 a transição de fato começou a ser executada, pois no período entre 2003 e 2006 foram feitas investigações sobre patentes de softwares e se isso poderia impactar de alguma forma nos cofres públicos de Munique. 

Somente em 2007 o nome escolhido foi LiMux, em que o M é uma referência aos registros dos veículos de Munique e também ao código International Air Transport Association (IATA) para o aeroporto de Munique, que é MUC (Munich).

Uma ferramenta foi desenvolvida para ajudar na migração, chamada de Wollmux, que a princípio foi feita para adequar o OpenOffice em áreas que o Conselho de Munique exigia, como o gerenciamento de papéis timbrados, modelos de formulários, blocos de notas padrão e versão de documentos. O Wollmux foi lançado em 2008.

Em 2012 para contornarem queixas dos usuários sobre algumas incompatibilidades do OpenOffice, o projeto decidiu migrar para o LibreOffice. Mas ajustes são esperados para uma organização governamental, e conforme o chefe dos serviços municipais de TI, Karl-Heinz Schneider, comentou em 2014, que até então, o projeto já havia economizado 10 milhões de euros para a cidade de Munique e que as reclamações eram normais para aquele tamanho de estrutura.

De 2009 até 2013 o poder público da cidade de Munique contava com 18.000 desktops em sua posse, sendo que 15.000 deles já estavam rodando o LiMux e o OpenOffice/LibreOffice. O LiMux originalmente foi baseado no Debian, mas depois migrou para o Ubuntu.  Sua última versão foi publicada em 2014, que era o LiMux Client 5.0 (Ubuntu 12.04 LTS), KDE SC 4.12 como DE, LibreOffice 4.1 como suíte office, Mozilla Firefox e o Mozilla Thunderbird.

Mas aí veio o ano de 2017…

2017, o ano da volta para o Windows

Em 2017, o mesmo Conselho Municipal de Munique em uma votação, resolveu que era hora de voltar para a base Microsoft, alegando que em alguns casos a produtividade e a eficiência diminuíram, e que, a cidade precisava permanecer competitiva em uma sociedade cada vez mais digital, segundo a conselheira e porta-voz do grupo parlamentar SPD, Anne Hübner.

Para saber mais como essa “bomba” repercutiu na época, temos um vídeo muito bacana e explicativo logo abaixo, vale a pena conferir 😀.

Chega 2020 e tudo muda novamente

Em 2020 mais uma reviravolta aconteceu no caso da Alemanha, onde os recém-eleitos políticos da cidade de Munique, decidiram que o governo deveria voltar para as soluções de softwares open source ao invés dos produtos proprietários da Microsoft.

Isso foi tratado em um acordo finalizado no domingo (10/05) entre a nova coalizão feita pelo recente eleito Partido Verde (Die Grünen) e o Social Democratas (Sozialdemokratische Partei Deutschlands, SPD), que ficarão no poder até 2026. Duas frases deste acordo podem ser destacadas, que são:

“Where it is technologically and financially possible, the city will put emphasis on open standards and free open source licensed software,” 

“Onde for possível tecnologicamente e financeiramente, a cidade dará uma ênfase maior aos formatos abertos e ao open source como licenciamento dos software,”

“We will adhere to the principle of ‘public money, public code’. That means that as long as there is no confidential or personal data involved, the source code of the city’s software will also be made public,” 

“Vamos aderir ao princípio do ‘dinheiro público, código público’. Isso significa que, enquanto não houver dados pessoais ou confidenciais envolvidos, o código-fonte do software da cidade será tornado público também,”

Ainda segundo levantamento do site ZDNet, a migração do Linux para as plataformas proprietárias, como Microsoft, Oracle e SAP, custaram cerca de € 86,1 Milhões (R$ 545 Milhões aproximadamente).

Foram ouvidos Alex Sander, gerente de políticas públicas da UE na Free Software Foundation Europe, sediada em Berlim, e Basanta Thapa especialista em governo digital do Fraunhofer Institute for Open Communication Systems, também sediada em Berlim.

Alex comentou que:

“We’re very happy that they’re taking on the points in the ‘Public Money, Public Code’ campaign we started two and a half years ago. Nothing will change from one day to the next, and we wouldn’t expect it to. But the next time there is a new contract, we believe it should involve free software.”

“Estamos muito felizes por eles estarem assumindo os pontos da campanha ‘Dinheiro público, código público’ que começamos há dois anos e meio” e complementou com “Nada vai mudar de um dia para o outro, e não esperamos que isso aconteça. Mas na próxima vez que houver um novo contrato, acreditamos que ele deva envolver software livre”.

Já Basanta, comentou sobre algumas alegações de que a decisão era política com o objetivo de conseguir um contrato melhor com a Microsoft, ele disse:

“There are also issues such as being locked into a contract that could eventually get more expensive,” Thapa says, “and whether open source is less expensive in the long run, even if switching over incurs costs now.”

“…Elas não são puramente técnicas e, na minha opinião, isso não é necessariamente uma coisa ruim…”, complementando com “…Há também questões como ficar preso a um contrato que pode eventualmente ficar mais caro com o tempo e se o código aberto é menos caro a longo prazo, mesmo que a mudança acarrete custos no presente…”.

Um ponto levantado por Basanta, é que existe um clima totalmente diferente agora em relação ao open source do que existia há uma década e meia na Alemanha, que agora começou a discussão de alcançar uma “soberania digital” em relação à empresas como Microsoft e Huawei. Discussão essa que se estende aos outros governos da União Européia (UE).

Outros Governos que começaram a adoção de Linux

Quando a cidade de Munique deu o primeiro passo para a adoção do Linux, gerou um efeito cascata que “atingiu” outras grandes cidades alemãs, como Berlim, Dortmund, Leipzig e influenciou cidades menores como Leonberg, no estado de Baden-Württemberg e Treuchtlingen, na Baviera.

Saindo um pouco da Alemanha, algumas cidades em outros países também fizeram a escolha do Linux como Madrid, Paris e Barcelona, desta última fizemos uma cobertura bem bacana aqui no blog. Barcelona está destinando cerca de até 70% do orçamento de TI para todo o ecossistema que envolve o software livre e desenvolvedores locais.

Outro país um pouco distante do centro europeu e que começou a fazer a sua migração para uma solução Linux, foi a Coreia do Sul, que investirá cerca de US$655 milhões (₩780 bilhões de won) entre implementação do Linux e compra de computadores novos.

No Brasil temos o exemplo da empresa Oscar Calçados, que economizou R$ 700 mil em licenças de softwares, fizemos um artigo detalhando esse processo. Também fizemos uma entrevista com o Erlon Sousa Pinheiro da empresa F13, sobre migração das empresas para Linux.

Se você ficou curioso para saber onde mais o Linux é usado, dá uma olhadinha neste post do aniversário de 27 anos e muito provavelmente terá grandes surpresas.

Nos vemos no próximo artigo, forte abraço!

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