A IA chegou ao Ubuntu: testamos o Myna, a nova ferramenta de ditado offline da Canonical
Ao acompanhar qualquer evento recente de lançamento do Windows, macOS ou Android, a sensação costuma ser a mesma: uma enxurrada ininterrupta de novidades sobre Inteligência Artificial. Algumas funções são genuinamente úteis, enquanto outras parecem apenas recursos experimentais empurrados às pressas para chamar a atenção. Até pouco tempo, o desktop Linux permanecia distante dessa corrida por IA embutida no sistema operacional.
A Canonical, contudo, decidiu dar seu primeiro passo oficial nesse universo com o Ubuntu 26.10. A distribuição recebeu uma funcionalidade nativa voltada à produtividade e acessibilidade: o Projeto Myna. Trata-se de uma tecnologia de speech-to-text (conversão de fala em texto) alimentada por modelos neurais de IA que transcreve o que você fala ao microfone diretamente para qualquer caixa de texto do sistema.
A grande diferença em relação às soluções das big techs está na filosofia: por se tratar de um sistema focado em privacidade, todo o processamento do Myna é executado de forma 100% local. Nada do que você diz é enviado para a nuvem.
Testamos a novidade em uma instalação de testes do Ubuntu para conferir como ela funciona, qual é a facilidade de configuração e se a tecnologia já está pronta para o uso no dia a dia.

Como o Myna funciona no sistema
No momento da nossa avaliação, o Myna ainda não estava habilitado por padrão na instalação padrão do Ubuntu 26.10, exigindo a inclusão de um repositório PPA experimental mantido pelos próprios engenheiros do projeto e a ativação de recursos de serviços de usuário no Snap. Quando a versão final do sistema for lançada, o recurso deverá ser disponibilizado de maneira muito mais integrada e transparente para os usuários.
A arquitetura do projeto foi estruturada em três partes essenciais:
- O aplicativo de ditado, empacotado via Snap e configurado para rodar como serviço em segundo plano;
- Uma extensão para o GNOME Shell, responsável pela integração com a interface e exibição do status do microfone;
- O modelo de inteligência artificial de reconhecimento de fala, baixado sob demanda para rodar no seu hardware.

Manter o aplicativo rodando em segundo plano é fundamental para a agilidade do fluxo de trabalho. Dessa forma, você não precisa abrir uma janela dedicada toda vez que quiser ditar algo: basta pressionar um comando de teclado para que a transcrição comece imediatamente no aplicativo que estiver focado.
Modelos de IA: precisão em português
O coração do Myna é o modelo neural encarregado de decodificar as ondas sonoras e transformá-las em palavras escritas. Durante a configuração inicial, o aplicativo analisa seu computador e sugere o modelo mais indicado para as especificações da máquina.
No nosso teste, o Myna sugeriu por padrão o modelo Parakeet, desenvolvido pela NVIDIA. Trata-se de um modelo que pesa cerca de 776 MB no disco, com suporte a mais de 25 idiomas e catalogado como a melhor opção para a língua portuguesa.

Logo após o download do modelo, o assistente solicita a confirmação do atalho de teclado. A combinação padrão é Super + J, que pode ser personalizada conforme a conveniência do usuário para não entrar em conflito com outros aplicativos.

Ajustes e opções de personalização
Finalizado o assistente de introdução, o painel principal do Myna Settings revela uma interface moderna e enxuta, perfeitamente integrada aos padrões de design da Libadwaita do GNOME.

Na aba General, o usuário encontra diversas opções para afinar o comportamento do ditado:
- Alertas sonoros: sinais sonoros ao iniciar, pausar ou encontrar erros de áudio;
- Momento da transcrição: você pode escolher receber o texto em tempo real conforme fala (As you speak) ou aguardar a finalização da frase antes de descarregar o texto no campo;
- Estilo do indicador: controle sobre o elemento visual flutuante na tela;
- Tempo limite de silêncio: define quantos segundos de pausa são necessários para encerrar a escuta automaticamente (30 segundos por padrão).
Além disso, a aba Model traz uma possibilidade muito bem-vinda: a de instalar outros modelos de IA.

Entre as opções disponíveis estão:
- Whisper (OpenAI): modelo de código aberto bastante conhecido, muito mais compacto (198 MB) e com suporte a 99 idiomas, embora com uma precisão menor à do Parakeet em português;
- FunASR: modelo de 309 MB especialmente otimizado para idiomas asiáticos como chinês, japonês e coreano.
Essa modularidade garante que o usuário possa trocar de modelo conforme suas preferências de velocidade, precisão ou espaço em disco e memória RAM.
Testando o Myna
Para testar o desempenho na vida real, abrimos o editor de textos padrão do GNOME e acionamos o atalho Super + J.
Na primeira ativação após a inicialização do sistema, um indicador compacto surge na parte inferior da tela com a mensagem “Loading model…”, carregando o modelo neural para a memória RAM. O processo leva apenas alguns instantes. Em seguida, o indicador passa para o modo ativo e a ferramenta começa a capturar a voz.

Conforme falamos ao microfone, o texto vai surgindo na tela com uma velocidade notável. O Myna não apenas reconhece as palavras, como também tenta inferir a estrutura gramatical da fala, inserindo vírgulas e pontos finais automaticamente nos locais apropriados.
Durante nosso experimento em versão de desenvolvimento, observamos alguns comportamentos pontuais:
- A pontuação funcionou muito bem para pausas naturais e pontos finais, embora tenha deixado passar pontos de interrogação em perguntas diretas;
- Houve um aviso indicando que o ruído de fundo estava elevado, embora o teste ocorresse num ambiente silencioso;
- Pequenos deslizes fonéticos aconteceram em palavras mais rápidas, algo perfeitamente esperado para um projeto que ainda está em fase experimental de pré-lançamento.
Apesar dessas pequenas arestas a serem aparadas com o refinamento dos modelos e atualizações do software, a experiência geral surpreende pela fluidez e pela facilidade de uso em qualquer janela ativa.
Um avanço real para o desktop Linux
O Projeto Myna traz uma abordagem muito sóbria e bem-vinda para o uso de inteligência artificial no Linux. Em vez de chatbots generalistas integrados à força na barra de tarefas ou telemetria invasiva colhendo dados de uso, a Canonical escolheu uma aplicação prática de alta utilidade: acessibilidade e agilidade na escrita de textos.
Poder utilizar reconhecimento de fala moderno de forma totalmente desconectada da internet, sem depender de chaves de API pagas ou enviar gravações pessoais para servidores corporativos, é exatamente o tipo de benefício que se espera de uma distribuição Linux.
À medida que o Ubuntu 26.10 avança para o lançamento estável e os modelos de reconhecimento de linguagem continuam evoluindo, o Myna tem tudo para se consolidar como uma ferramenta indispensável no dia a dia de quem escreve bastante no computador ou precisa de ferramentas robustas de acessibilidade.
Se você tem curiosidade sobre outras propostas para o uso de inteligência artificial no Desktop Linux, confira como o Omarchy Quattro traz agentes de IA ao Linux com uma abordagem bem diferente.



