A Qualcomm anunciou nesta terça-feira (7) a aquisição da Arduino, empresa italiana conhecida mundialmente por seus microcontroladores acessíveis e por popularizar a prototipagem de hardware. O valor da negociação não foi divulgado, mas a empresa confirmou que a Arduino continuará operando como subsidiária independente.
A compra marca um passo importante para a Qualcomm, que busca se consolidar como uma fornecedora essencial no mercado de robótica, automação e Internet das Coisas (IoT), segmentos em rápido crescimento e cada vez mais dependentes de chips com poder de processamento voltado à inteligência artificial.
A união entre gigante dos chips e símbolo da prototipagem
A Arduino nasceu em 2005, na Itália, como um projeto acadêmico que pretendia tornar o desenvolvimento eletrônico acessível a qualquer pessoa. Suas placas simples, baratas e fáceis de programar logo se tornaram o padrão em laboratórios de robótica, startups e universidades.
Já a Qualcomm, famosa pela linha Snapdragon usada em smartphones e dispositivos móveis, tem investido fortemente para diversificar sua atuação. A companhia vem enfrentando uma desaceleração no setor de celulares, enquanto busca novos horizontes nos setores automotivo, industrial e IA embarcada.
Com a aquisição, a Qualcomm ganha acesso direto a uma comunidade global de desenvolvedores e makers, muitos dos quais estão na linha de frente da inovação em robótica. Como ressaltou Nakul Duggal, gerente-geral de automotivo e IoT da Qualcomm, o objetivo é acompanhar o ciclo completo: “Você começa com o protótipo, prova o conceito e, quando estiver pronto, pode ir para o mercado, algo que conhecemos muito bem”.
Do protótipo ao produto final
Na prática, a Arduino funciona como porta de entrada para inventores, engenheiros e estudantes que querem criar robôs, sensores e dispositivos inteligentes. As placas não são pensadas para uso comercial, mas sim para testar ideias e validar conceitos.
É aí que entra a estratégia da Qualcomm: conquistar a fidelidade desses desenvolvedores desde o início, para que, quando suas criações evoluírem para produtos comerciais, escolham chips da própria empresa. A abordagem é parecida com a adotada pela Nvidia, que há anos oferece kits de desenvolvimento de robótica com GPUs voltadas para IA vendidos no varejo por cerca de US$ 249.
Com o mercado de smartphones estagnado e a Apple migrando para seus próprios modems, a Qualcomm tenta reduzir sua dependência desse segmento. Atualmente, os setores de IoT e automotivo já representam cerca de 30% da receita total de chips da companhia, e a tendência é que essa fatia cresça rapidamente.
Nos últimos meses, a empresa também adquiriu a Foundries.io e a Edge Impulse, duas companhias voltadas ao ecossistema de desenvolvimento embarcado, mostrando que a expansão para o mundo da robótica é parte de um plano maior. Segundo Duggal, a visão de longo prazo inclui até robôs humanoides, que exigem um poder de computação similar ao de veículos autônomos.
Arduino Uno Q
Com o anúncio da aquisição, a Arduino revelou o lançamento da Arduino Uno Q, a primeira placa da marca equipada com um chip Qualcomm. O modelo, com preço entre US$ 45 e US$ 55, traz o processador Qualcomm Dragonwing QRB2210, capaz de rodar Linux e software Arduino simultaneamente.
Com esse novo chip, a placa ganha recursos inéditos como visão computacional, permitindo que câmeras interpretem o ambiente em tempo real, um salto significativo em relação aos microcontroladores tradicionais, que não têm potência para tarefas de IA. Ainda assim, a empresa italiana continuará oferecendo placas com chips de parceiros como STMicroelectronics, Renesas, Microchip e NXP, mantendo a compatibilidade com a base existente de desenvolvedores.
Um ponto essencial do acordo é que a Arduino manterá sua identidade e comunidade intactas.
Segundo Duggal, a meta é que “o ecossistema Arduino nem perceba que houve uma mudança de propriedade”. Isso significa que os fóruns, tutoriais e bibliotecas continuarão sendo mantidos pela própria equipe da Arduino, agora com o apoio financeiro e tecnológico da Qualcomm.
A empresa americana também assegurou que não pretende interferir na gestão ou no modelo de negócios atual, um sinal de respeito ao legado e à autonomia da marca italiana, cuja filosofia de hardware aberto e educação tecnológica foi fundamental para popularizar a cultura maker no mundo.
Se a integração acontecer como planejado, o futuro dos robôs pode começar não em laboratórios secretos, mas nas mesas de trabalho de milhares de makers ao redor do mundo, agora com o selo e a potência da Qualcomm.
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