Quando Lip-Bu Tan subiu ao palco no Intel Vision 2025, sua mensagem foi clara: “A Intel precisa voltar às suas raízes”. E não era apenas um discurso motivacional. O novo CEO, que assumiu o cargo em março de 2025, herdou uma empresa em crise – financeira, tecnológica e, principalmente, de identidade.
A Intel, que já foi sinônimo de inovação no mundo dos semicondutores, enfrenta um momento decisivo. Competidores como AMD, Nvidia e até mesmo a Apple (com seus chips ARM) avançam em mercados que antes eram dominados pela gigante de Santa Clara. Enquanto isso, a Intel ainda tenta se recuperar de um ano desastroso: prejuízos bilionários, demissões em massa e a saída do ex-CEO Pat Gelsinger, cuja aposta em fundições não decolou como o esperado.
Com um currículo que inclui passagens pela Cadence Design Systems e uma formação técnica sólida (física e engenharia nuclear), Tan promete uma Intel mais ágil, focada em engenharia e, acima de tudo, menos burocrática.
2024: o ano que a Intel quer esquecer
Para entender o tamanho do desafio que Tan enfrenta, é preciso olhar para trás. 2024 foi um ano catastrófico para a Intel, marcado por:
Crise financeira sem precedentes
A empresa registrou prejuízos de US$ 16,6 bilhões em um único trimestre, o maior da sua história. Parte disso veio dos altos investimentos em fábricas de chips (Intel Foundry), que ainda não deram retorno significativo. Para piorar, a Intel perdeu espaço no mercado de IA, onde Nvidia e AMD avançam com soluções especializadas.
Processadores instáveis
Enquanto tentava se reposicionar, a Intel ainda teve que lidar com um escândalo de qualidade: seus processadores Core i9 de 13ª e 14ª geração apresentaram falhas graves, causando telas azuis e reinicializações em massa. A solução? Um patch que só funcionava se o chip ainda não tivesse danificado — algo que deixou muitos usuários frustrados.
A saída de Pat Gelsinger
Gelsinger, que retornou à Intel em 2021 com a missão de revitalizar a empresa, acabou deixando o cargo em dezembro de 2024. Sua estratégia de transformar a Intel em uma grande fundição (como a TSMC) não decolou, e os investidores perderam paciência.
Menos burocracia, mais inovação
Em seu discurso no Intel Vision 2025, Tan deixou claro que não há tempo a perder. Seus principais pilares para recuperar a Intel são:
Prioridade absoluta à engenharia
Tan quer trazer de volta a cultura de inovação que fez a Intel liderar o mercado por décadas. Isso significa menos camadas hierárquicas e mais agilidade no desenvolvimento de produtos. “Burocracia mata inovação”, afirmou, em uma crítica direta à lentidão que tomou conta da empresa nos últimos anos.
Aposta na IA antes que seja tarde demais
Enquanto a Nvidia domina o mercado de GPUs para IA e a AMD avança com seus processadores, a Intel ainda tenta encontrar seu espaço. Tan promete chips x86 otimizados para cargas de trabalho específicas, além de acelerar o lançamento de novas arquiteturas, como o Panther Lake (18A) e Nova Lake.
Manter planos, mas com cautela
Apesar dos tropeços, Tan mantém a aposta na divisão de fundição. Ele admitiu, porém, que a Intel precisa de grandes clientes para justificar os investimentos bilionários. Nomes como Apple, Nvidia e Broadcom foram mencionados como possíveis parceiros, mas nenhum compromisso foi anunciado.
Parceria com o Governo dos EUA
Com a administração Trump buscando reduzir a dependência de fabricantes asiáticos (como a TSMC), Tan sinalizou que a Intel pode ser uma peça-chave nessa estratégia. “Eles estão perguntando como podem nos ajudar, e eu certamente vou pedir”, afirmou.
E Agora?
Apesar do discurso institucional otimista, analistas e investidores permanecem céticos. Stacy Rasgon (Bernstein) classificou o evento como “mais um pedido de desculpas do que um plano concreto”. Mark Lipacis (Evercore ISI) lembrou que mudar a cultura de uma empresa com 110 mil funcionários não acontece do dia para a noite. As ações da Intel caíram 3% após o anúncio, mostrando que o mercado ainda não está convencido de que a virada está tão próxima.
A Intel ainda tem recursos, talento e um legado forte. Mas o tempo está contra ela. Se Tan conseguir executar metade do que prometeu, já será um avanço significativo.
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