Enquanto a Europa discute soberania digital e redução de dependência tecnológica dos Estados Unidos, os números contam uma história diferente: as empresas americanas de cloud computing controlam 70% do mercado europeu, deixando provedores locais com a menor parte. Amazon, Microsoft e Google não só dominam, mas continuam a expandir seu império, enquanto empresas europeias como SAP e Deutsche Telekom mal alcançam 2% de participação cada.
A pergunta que fica é: por que, mesmo com tanto discurso sobre autonomia digital, a Europa não consegue competir? A resposta envolve dinheiro, escala e uma boa dose de realismo econômico.
O crescimento que não chega
Entre 2017 e 2024, as receitas das empresas europeias de infraestrutura em nuvem mais que triplicaram. Parece impressionante, até descobrir que o mercado como um todo sextuplicou. Neste movimento, as gigantes americanas engoliram a concorrência, deixando os provedores regionais com apenas 15% do bolo.
O problema não é falta de esforço. Empresas como a francesa OVHcloud até tentaram convencer governos e empresas a migrarem para suas plataformas, mas a realidade é dura: deslocar cargas de trabalho do Azure ou AWS para soluções locais é caro, complexo e muitas vezes inviável.
John Dinsdale, analista-chefe da Synergy Research, resume o dilema europeu:
“Os provedores de nuvem dos EUA investem €10 bilhões por trimestre na Europa. Isso cria uma montanha impossível de escalar para quem quiser desafiar sua liderança.”
A nuvem é um jogo de escala. Amazon, Microsoft e Google têm data centers em todo o mundo, preços agressivos e um ecossistema de serviços integrados que nenhuma empresa europeia consegue replicar sozinha. Enquanto a AWS pode cortar custos devido ao seu tamanho, a OVHcloud ou a SAP precisam cobrir investimentos muito maiores com uma base de clientes menor.
Neste ciclo, mesmo governos europeus, que pregam soberania digital, continuam dependentes de Azure e AWS.
Quando a intenção choca com a realidade
A discussão sobre privacidade e controle de dados ganhou força nos últimos anos. Um retrato que demonstra a causa, foi quando um executivo da Microsoft admitiu, em uma audiência no Senado francês, que a empresa “não pode garantir” a soberania dos dados se o governo dos EUA exigir acesso.
Ainda assim, a migração em massa para nuvens europeias não aconteceu. Por quê? Eis algumas causas:
- Lock-in tecnológico: Migrar de AWS/Azure para um provedor local exige reescrever aplicações, retreinar equipes e lidar com incompatibilidades;
- Falta de alternativas completas: Muitas nuvens europeias não oferecem a mesma gama de serviços (especialmente em IA e machine learning);
- Custo: Ajustar contratos e infraestrutura sai caro, e muitas empresas preferem o risco regulatório à dor de cabeça operacional.
Se a infraestrutura tradicional já é dominada pelos EUA, a revolução da IA está consolidando ainda mais essa liderança. Serviços como GPU-as-a-Service (GPUaaS) e plataformas de IA generativa (GenAI PaaS) estão crescendo a taxas de 140-160% ao ano na Europa e, claro, quem está lucrando são Microsoft, Google e AWS.
Enquanto isso, as empresas europeias tentam correr atrás, mas sem o mesmo poder de investimento em chips, data centers e modelos de linguagem, o abismo só aumenta.
A Europa até tenta reagir—um grupo de 100 empresas pressionou a Comissão Europeia por um fundo de infraestrutura soberano, e há discussões sobre regulamentações mais rígidas. Mas, como disse Steve Brazier, ex-CEO da Canalys:
“Na teoria, nada impede a Europa de repatriar seus dados. Na prática, é quase impossível.”
Enquanto os EUA continuarem injetando bilhões em infraestrutura global, a soberania digital europeia pode acabar sendo só mais um belo discurso sem impacto real. Restará à Europa aceitar seu papel de cliente privilegiado das big techs ou encontrar uma maneira de competir que não dependa apenas de discursos políticos.Confira alguns softwares europeus que competem com as big techs norte-americanas!




