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Por que o videogame brasileiro Lupi tem três portas de controle?

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À primeira vista, o Lupi pode parecer apenas mais um videogame compacto inspirado nos consoles clássicos. Ele tem gráficos simples, controles físicos, conexão com a TV e hardware relativamente modesto. Mas existe uma característica que chama bastante atenção: o console tem três portas para controles.

Não se trata de uma escolha aleatória de design ou de uma tentativa de colocar um jogador a mais do que os concorrentes. O número três nasceu de uma pesquisa sobre a realidade das famílias brasileiras e ajuda a explicar a própria proposta do projeto.

Um videogame pensado para ser o primeiro

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O Lupi nasceu de um projeto acadêmico. Seu criador começou desenvolvendo um pequeno videogame com tela LCD, controle inspirado no Super Nintendo e um microcontrolador ARM. O projeto acabou se tornando seu trabalho de conclusão de curso, depois de uma trajetória profissional como desenvolvedor.

O protótipo tinha uma característica que chamou a atenção: apesar do hardware simples, o jogo iniciava praticamente instantaneamente, rodava a 60 FPS e apresentava uma resposta muito rápida aos comandos.

Depois da apresentação do TCC, um professor da USP que participou da banca incentivou a continuidade do projeto. A partir daí surgiu uma pergunta mais difícil: existiria espaço no Brasil para um videogame barato, feito especificamente para quem ainda não tem um?

A equipe começou então a olhar para dados sobre o acesso à tecnologia no país e encontrou uma realidade bastante diferente daquela normalmente considerada quando se fala em videogames.

A pesquisa por trás das três portas

Segundo o criador do Lupi, entre famílias das classes D e E, apenas uma pequena parcela possui videogame. Ao mesmo tempo, a televisão está muito mais presente nesses lares, assim como alguma forma de acesso à internet. Isso muda completamente a maneira de pensar um console.

Em vez de tentar competir com PlayStation, Xbox ou Switch, o Lupi foi concebido para ocupar outro espaço: ser o primeiro videogame de alguém.

É nesse contexto que aparecem as três portas de controle. A equipe identificou que famílias brasileiras de determinadas faixas socioeconômicas têm, em média, dois ou três filhos. Portanto, três controles permitem que uma família inteira participe da mesma partida sem precisar comprar acessórios adicionais imediatamente.

A escolha também influencia os próprios jogos. Gêneros como beat ‘em ups, aqueles clássicos jogos de briga de rua, funcionam especialmente bem com três jogadores simultâneos. Em vez de cada criança precisar esperar sua vez, todos podem jogar juntos.

É uma decisão de hardware que acaba influenciando também o tipo de experiência que o console pretende proporcionar.

Não é um clone do Super Nintendo

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Apesar da inspiração nos videogames antigos, o Lupi não pretende ser um emulador de consoles clássicos. A equipe entende que já existem alternativas baratas para quem simplesmente quer rodar jogos antigos.

O hardware foi projetado para que os desenvolvedores possam criar jogos próprios. A plataforma utiliza Lua como linguagem de programação, buscando facilitar a criação de software e manter uma capacidade gráfica comparável à de consoles da era 16-bit.

O console trabalha com resolução de 480 × 270 pixels e consegue produzir uma saída em 1080p para televisores, utilizando escalonamento inteiro para preservar o aspecto pixelado. A ideia é combinar uma arquitetura simples com uma experiência rápida e direta.

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O projeto também inclui Wi-Fi e suporte a cartões de memória para armazenar jogos. Isso levou a equipe a enfrentar até problemas pouco convencionais, como testar cartões SD extremamente baratos para descobrir sua capacidade real. Alguns modelos utilizados nos testes apresentavam capacidades muito menores do que a declarada.

Por que VGA em vez de HDMI?

Outro detalhe curioso está na saída de vídeo. Em vez de HDMI, o Lupi utiliza VGA. A decisão está diretamente relacionada ao objetivo de manter o custo do projeto baixo. O HDMI envolve licenciamento e custos associados à utilização da tecnologia, enquanto o VGA pode ser implementado de maneira mais simples.

Para televisores modernos, é possível utilizar um conversor VGA para HDMI, enquanto TVs e monitores mais antigos podem ter entrada VGA nativa. A equipe também considera o fato de que muitos televisores usados, especialmente modelos produzidos entre os anos 2000 e 2010, trazem entradas para computadores.

Mais uma vez, a decisão parece estranha quando analisada a partir de um videogame convencional, mas faz sentido quando o objetivo é alcançar equipamentos que já estão presentes nas casas.

Um console sem a pressão dos gigantes

Talvez a característica mais interessante do Lupi esteja justamente naquilo que ele não tenta fazer. O projeto não quer competir com consoles modernos em gráficos, resolução, realismo ou grandes produções. O objetivo é reduzir as barreiras para que uma pessoa tenha contato com videogames pela primeira vez.

Isso também permite que o projeto tome decisões diferentes das adotadas pela indústria tradicional. Três controles fazem sentido porque o foco está na experiência compartilhada. Hardware simples faz sentido porque o objetivo não é reproduzir gráficos cinematográficos. E a possibilidade de desenvolver jogos em Lua abre espaço para uma plataforma mais acessível também para quem cria software.

No fim, as três portas de controle contam uma parte importante da história do Lupi. Elas não estão ali porque três é um número conveniente, mas porque o console foi pensado a partir da realidade das famílias que ele pretende alcançar.

Este conteúdo é um corte do Diocast. Assista ao episódio completo, em que recebemos Luiz Gustavo Lino, o criador do Lupi, para entender como uma ideia de trabalho acadêmico se transformou em uma proposta de hardware surpreendente, capaz de aproximar crianças, estudantes e entusiastas do universo da tecnologia.

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Redator, além de estudante de engenharia e computação.
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