OpenLogi: o projeto open source que faz melhor do que o app da Logitech
Durante muito tempo, comprar um mouse ou teclado sofisticado significava aceitar uma condição pouco comentada: para aproveitar todos os recursos do hardware, você também precisava instalar o software da fabricante.
Com a Logitech, essa relação ficou especialmente evidente. Um MX Master pode ter dezenas de possibilidades de configuração, gestos, perfis e ajustes, mas boa parte dessa experiência sempre esteve concentrada no software oficial da empresa. No Linux, a situação era ainda mais curiosa: os periféricos funcionavam, mas o suporte às funções avançadas dependia de projetos comunitários como Solaar, Piper e outros.
Agora, um projeto chamado OpenLogi está atacando o problema por outro caminho. Em vez de tentar reproduzir apenas algumas funções isoladas, ele está construindo uma alternativa completa ao Logitech Options+, com uma característica importante: o programa foi pensado desde o começo para ser local e multiplataforma.
E isso levanta uma pergunta interessante: se o hardware já é capaz de fazer tudo isso, por que precisamos do software proprietário para controlá-lo?
O Logitech Options+ nunca foi apenas um configurador
A ideia de um aplicativo para configurar mouse e teclado parece simples. Você conecta o periférico, abre o programa, escolhe um botão e determina o que ele deve fazer. O problema começa quando o software deixa de ser apenas uma ferramenta de configuração e passa a ser parte obrigatória da experiência.
O Options+ permite configurar botões, DPI, gestos, SmartShift, iluminação e outras funções de diferentes periféricos Logitech. O OpenLogi está seguindo uma filosofia semelhante, porém com uma diferença estrutural: as configurações ficam na máquina do usuário.
O projeto se apresenta como uma alternativa local-first ao Options+. Não exige conta, não utiliza telemetria e armazena as configurações em um arquivo TOML que pode ser lido, editado, versionado e copiado para outro computador. Isso parece um detalhe pequeno até você perceber o que significa.
Se você passa horas configurando um MX Master, pode simplesmente levar o arquivo de configuração para outro computador. O OpenLogi identifica os dispositivos pela identidade física, como o número de série do receptor e o slot utilizado, permitindo reaproveitar as configurações sem depender de sincronização em uma conta.
É uma abordagem muito mais próxima daquilo que esperamos de software tradicional para desktop.
Mas alguém entregou os segredos da Logitech?
Não foi necessário que alguém dentro da Logitech vazasse o código-fonte do Options+ para que o OpenLogi pudesse existir.
O caminho passa pelo HID++, protocolo proprietário utilizado pela Logitech para comunicação avançada com seus periféricos. A própria empresa mantém documentação pública sobre o HID++ 2.0, incluindo a estrutura dos pacotes e o funcionamento baseado em recursos (features) que cada dispositivo implementa.
O HID++ funciona como uma camada de comunicação construída sobre o padrão USB HID. Em vez de simplesmente dizer ao computador “uma tecla foi pressionada” ou “o mouse se moveu”, ele permite consultar e alterar recursos específicos do dispositivo.
Um mouse pode expor funções relacionadas a DPI, roda de rolagem, bateria, gestos ou SmartShift. Um teclado pode oferecer outros recursos. Cada equipamento implementa uma combinação diferente deles. Essa característica é fundamental para entender como projetos como OpenLogi e Solaar conseguem conversar diretamente com os periféricos.
A documentação pública da Logitech fornece uma parte do caminho. O restante vem do trabalho acumulado pela comunidade ao longo dos anos. O Solaar, por exemplo, já lida há muito tempo com os protocolos proprietários da Logitech e documenta que diferentes dispositivos implementam subconjuntos diferentes do HID++.
O OpenLogi pode aproveitar esse conhecimento, mas ainda precisa descobrir particularidades de modelos específicos e recursos que não estão documentados de maneira suficiente. É aí que entra a engenharia reversa.
Portanto, a resposta para a pergunta é menos cinematográfica do que um vazamento industrial: há documentação oficial, padrões públicos, código comunitário e uma quantidade considerável de investigação técnica acumulada ao longo dos anos.

Rust, HID++ e uma arquitetura completamente local
O OpenLogi foi escrito em Rust e possui três componentes principais: a interface gráfica, um agente responsável pela comunicação com os dispositivos e uma ferramenta de linha de comando.
A interface gráfica funciona como cliente do agente. É ele quem assume a comunicação com o hardware e o gerenciamento das entradas. Essa separação permite que o programa mantenha a interface independente da camada que efetivamente controla os periféricos.
No Linux, isso envolve tecnologias como hidraw, uinput, udev e evdev. O pacote do OpenLogi instala as regras necessárias para que o usuário consiga acessar os dispositivos sem executar o programa como administrador, além de disponibilizar um serviço de usuário para manter o agente funcionando.
Essa arquitetura também ajuda a explicar por que o projeto consegue oferecer recursos que normalmente parecem depender de um aplicativo proprietário.
Quando você muda o DPI, o OpenLogi pode enviar a alteração diretamente ao dispositivo por HID++. Quando remapeia um botão, o agente pode interceptar a entrada e criar a ação correspondente no sistema operacional. Quando modifica o SmartShift, a alteração pode ser escrita diretamente no hardware. A nuvem simplesmente não é necessária para esse tipo de operação.
O que dá para fazer com o OpenLogi?
O projeto já passou da fase de demonstração técnica. Entre os recursos disponíveis estão remapeamento de botões, atalhos personalizados, controle de DPI, presets de DPI, SmartShift, inversão da rolagem, controle da thumb wheel, iluminação de teclados e gerenciamento de bateria. Há também suporte a perfis específicos por aplicativo sendo desenvolvido.
O projeto também consegue trabalhar com diferentes formas de conexão. Dispositivos podem ser acessados por receptores Logi Bolt, Unifying e Lightspeed, Bluetooth ou cabo USB.
A compatibilidade já inclui modelos conhecidos da família MX, como MX Master 3, MX Master 3S e MX Master 4, além de MX Anywhere 3, Logitech Lift, Ergo M575 e Signature M650. Entre os teclados estão modelos da linha MX Mechanical e MX Keys.
A lista, porém, não deve ser interpretada como uma garantia de que todos os recursos de cada modelo funcionarão perfeitamente. O próprio projeto alerta que está em desenvolvimento ativo e ainda não é considerado estável. Esse detalhe importa bastante.
HID++ não é uma API uniforme em que todos os dispositivos oferecem exatamente as mesmas funções. Dois produtos visualmente parecidos podem expor recursos diferentes, e recursos semelhantes podem ser implementados de maneiras diferentes.
É por isso que a compatibilidade do OpenLogi está crescendo gradualmente.

E as webcams?
O projeto foi além de mouse e teclado. Webcams Logitech também podem aparecer na interface do OpenLogi, aproveitando o padrão USB Video Class, enquanto alguns outros dispositivos, como as luzes Litra, utilizam interfaces próprias. A versão 0.6.24, lançada em agosto de 2026, adicionou suporte a webcams Logitech e também ampliou a compatibilidade com receptores Lightspeed.
Isso mostra uma mudança importante na ambição do projeto.
O OpenLogi começou como uma alternativa ao Options+, mas está se aproximando de uma camada comunitária para administrar diferentes categorias de hardware Logitech.

O Linux como prioridade
Durante anos, a existência de projetos como Solaar mostrou que havia demanda por ferramentas de configuração avançada. O problema é que a experiência era fragmentada. Um programa cuidava de determinadas funções, outro resolvia um caso específico, enquanto o software oficial permanecia concentrado em Windows e macOS.
O OpenLogi está tentando construir uma experiência única para os três sistemas. Atualmente existem pacotes para distribuições Linux baseadas em Debian, Fedora e Arch, além de builds para macOS e Windows. A versão para Windows é mais recente e ainda pode apresentar mais arestas do que as versões para Linux e macOS.
O projeto também já incorporou suporte a diferentes ambientes gráficos no Linux, incluindo backends para Wayland em wlroots e GNOME Shell.
Isso é significativo porque a proposta não é simplesmente “fazer o programa proprietário rodar no Linux”. É construir uma solução nativa que trate o Linux como uma plataforma de primeira classe.
Então já podemos apagar o Options+?
Ainda não. O OpenLogi é impressionante justamente porque chegou muito longe em pouco tempo, mas continua sendo um projeto em desenvolvimento.
Existem funções do ecossistema Logitech que ainda não estão disponíveis. O Logitech Flow, por exemplo, continua no roadmap. A própria equipe descreve a implementação como um trabalho grande, já que envolve a ponte de mouse e teclado entre computadores.
Também há limitações relacionadas ao pareamento. O OpenLogi já permite parear dispositivos com receptores Bolt pela interface gráfica, enquanto o suporte para iniciar novos pareamentos em receptores Unifying e Lightspeed ainda está em desenvolvimento.
Além disso, o OpenLogi e o Options+ não podem disputar o mesmo receptor simultaneamente. O próprio projeto recomenda fechar completamente o software da Logitech antes de iniciar o OpenLogi. No Linux, a mesma regra vale para o Solaar. Isso significa que a decisão depende do seu hardware e das funções que você utiliza.
Para quem precisa especificamente do Flow ou de algum recurso ainda ausente, o software oficial continua necessário. Para quem usa apenas remapeamento, DPI, SmartShift, gestos e outras funções já implementadas, o OpenLogi merece um teste.
E existe uma vantagem difícil de ignorar: você pode testar sem transformar sua conta ou seus dados em parte da equação.
O mais importante talvez nem seja a Logitech
Projetos como o OpenLogi costumam começar por uma frustração bastante específica. Neste caso, alguém queria controlar melhor o próprio hardware e decidiu construir a ferramenta que gostaria de ter. O resultado interessa por motivos que vão além dos produtos da Logitech.
Um mouse deveria continuar sendo útil mesmo quando o servidor da fabricante está indisponível. Uma configuração de teclado não precisa de uma conta online. Um perfil de DPI não precisa ser sincronizado por uma nuvem. E um periférico que já está conectado ao computador não deveria depender de uma conexão permanente com a internet para liberar aquilo que o próprio hardware é capaz de fazer.
O OpenLogi recupera uma ideia antiga da computação pessoal: o computador é seu e os periféricos conectados a ele deveriam obedecer a você.
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