The chip is our Governo dos EUA adquire 10% da Intel
Editorial

O chip é nosso? Governo dos EUA adquire 10% da Intel 

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Em uma jogada que mistura política industrial, estratégia geopolítica e intervenção estatal direta, o governo dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, fechou um acordo para adquirir uma participação de 9,9% na Intel Corporation. A operação, no valor de aproximadamente US$ 8,9 bilhões, não é uma compra tradicional no mercado aberto, mas sim a conversão de subsídios já aprovados pela lei CHIPS em uma fatia acionária da empresa. 

O movimento sinaliza uma guinada agressiva e sem precedentes na política industrial americana, com o Estado assumindo um papel de investidor direto em uma empresa de capital aberto considerada vital para a segurança nacional.

Subsídios transformados em ações

O cerne do negócio é engenhoso e polêmico. O governo utilizará fundos já destinados à Intel – US$ 5,7 bilhões em concessões não pagas da CHIPS Act (lei da era Biden) e US$ 3,2 bilhões do programa “Secure Enclave”, para adquirir 433,3 milhões de ações a US$ 20,47 cada. O preço representa um desconto significativo em relação ao fechamento das ações na sexta-feira (US$ 24,80), um detalhe que provavelmente será alvo de escrutínio por acionistas e analistas.

O acordo inclui uma warrant de cinco anos que dá ao governo o direito de adquirir uma participação adicional de 5% ao mesmo preço, acionável se a Intel perder o controle de seu negócio de foundry (manufactura de chips para terceiros). A participação do governo será passiva, sem direito a um assento no conselho, mas com a obrigação de votar junto com a diretoria na maioria das questões.

A guerra pelos semicondutores

Este não é um investimento isolado. É a peça mais recente em um tabuleiro de xadrez geopolítico onde os semicondutores são um recurso valioso. A administração Trump já havia estabelecido um acordo peculiar com a Nvidia e AMD, exigindo um corte de 15% da receita de suas vendas de chips de IA para a China, um “imposto” geopolítico que, segundo o The New York Times, pode render ao governo US$ 2 bilhões anuais.

Os EUA parecem estar dispostos a usar todos os instrumentos ao seu alcance, de tarifas a participação acionária direta, para realocar a produção de chips estratégicos em solo americano e dificultar o avanço tecnológico da China. Em certa medida, o governo americano está declarando que “o chip é nosso”, um recurso estratégico demasiado importante para ser deixado inteiramente nas mãos dos humores do mercado e da concorrência global.

Críticos argumentam que estas ações criam um novo e perigoso tipo de risco corporativo: o risco político direto. A linha que separa os interesses estratégicos nacionais da intervenção estatal arbitrária fica tênue. A dependência de um “favor” da Casa Branca pode se tornar um fator tão importante para o sucesso de uma empresa quanto sua inovação ou eficiência operacional.

Salvo pelo gongo

O acordo é um salva-vidas para uma Intel em profunda crise. A empresa registrou em 2024 seu primeiro prejuízo anual desde 1986, um buraco negro de US$ 18,8 bilhões. Ela perdeu a dianteira tecnológica para a TSMC na manufatura, foi ultrapassada pela NVIDIA na corrida da IA e vê a AMD comer suas fatias de mercado no segmento de processadores.

Seu ambicioso plano de se tornar uma foundry para terceiros (como a TSMC) consome bilhões sem gerar retorno, e seu mega projeto em Ohio sofre atrasos. O capital injetado pelo governo dá um fôlego imediato, mas analistas como Daniel Morgan, da Synovus Trust, são céticos: “Sem o apoio do governo ou outro parceiro financeiramente mais forte, será difícil para a unidade de foundry da Intel levantar capital suficiente para continuar construindo mais fábricas em um ritmo razoável”.

Um novo capítulo no capitalismo americano

O acordo com a Intel marca um ponto de inflexão. É a admissão do governo norte-americano de que, na guerra tecnológica do século XXI, a mão invisível do mercado precisa, ocasionalmente, de um empurrão muito visível do Estado. Se por um lado é uma medida extrema para um problema extremo, por outro abre um precedente perigoso de confusão entre os interesses do Estado e os de acionistas privados.

Para a Intel, é uma bênção financeira imediata, mas não uma solução mágica. A empresa ainda precisa provar que pode reconquistar a liderança tecnológica e atrair clientes para suas fundições.Fique por dentro das principais notícias da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!

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