Durante uma conversa recente no canal Adrenaline, o Diego fez um desabafo que certamente encontrou eco em muita gente: hardware está caro, SSDs atingiram valores que pareciam improváveis há alguns anos e montar um computador capaz de rodar os jogos mais recentes exige um investimento cada vez maior. É difícil discordar dessa análise.
Quem acompanha o mercado de tecnologia há algum tempo provavelmente já se perguntou como chegamos ao ponto em que uma placa de vídeo pode custar mais do que um computador completo custava há alguns anos. Some isso ao desaparecimento gradual das mídias físicas, à avalanche de conteúdo gerado por inteligência artificial e ao receio de que diversas profissões sejam profundamente transformadas nos próximos anos. O cenário parece desanimador.
Mas existe uma pergunta interessante no meio dessa discussão: se a tecnologia está em um momento tão ruim, por que tantos pesquisadores afirmam que estamos vivendo o período mais avançado da história da humanidade?
Talvez a resposta esteja menos na tecnologia e mais na forma como nós a percebemos.
A tecnologia avançou mais rápido do que conseguimos perceber
Uma das reflexões mais interessantes presentes no livro The God Equation, do físico Michio Kaku, é a importância da perspectiva histórica para compreender o progresso científico. Quando analisamos a evolução tecnológica apenas a partir dos problemas atuais, perdemos a capacidade de perceber o tamanho da transformação que aconteceu ao nosso redor.
A Terra sempre foi um lugar extraordinário. Em poucos milhares de anos, uma espécie conseguiu dominar o fogo, desenvolver a agricultura, construir cidades, criar sistemas matemáticos e transformar areia em semicondutores capazes de executar bilhões de operações por segundo.
O transistor, um dos componentes mais importantes da computação moderna, foi inventado há menos de um século. A internet comercial começou a se popularizar há pouco mais de 30 anos. Isso significa que existem pessoas vivas que testemunharam o nascimento da internet convivendo diariamente com gerações que jamais conheceram um mundo sem conexão.
Há pouco mais de duas décadas, localizar um endereço significava recorrer a mapas impressos. Compartilhar fotografias exigia filmes fotográficos e processos de revelação. Ter acesso a milhares de músicas exigia estantes repletas de CDs.
Os videogames também eram diferentes. Muitos jogadores dependiam de locadoras para experimentar novos títulos. Outros frequentavam LAN houses porque possuir um computador doméstico capaz de executar jogos era inviável financeiramente.
Hoje, praticamente qualquer smartphone oferece acesso instantâneo a mapas, videoconferências, bibliotecas digitais, serviços bancários, streaming de vídeo e milhões de músicas. A velocidade dessa transformação é tão grande que muitas vezes esquecemos que ela aconteceu.
Talvez seja difícil imaginar um mundo sem plataformas de vídeo, mas houve uma época em que compartilhar um arquivo audiovisual exigia conhecimentos técnicos avançados e uma infraestrutura inacessível para a maioria das pessoas.
Atualmente, publicar conteúdo na internet se tornou algo quase trivial. Ao mesmo tempo, surgiu um novo protagonista capaz de despertar sentimentos contraditórios: a inteligência artificial.
Muito além dos chatbots
Existe uma tendência de associar a IA exclusivamente aos modelos generativos responsáveis por criar textos, imagens e vídeos. Entretanto, essa área de pesquisa existe há décadas e envolve muito mais do que os serviços que se tornaram populares nos últimos anos.
A inteligência artificial é um campo científico baseado em matemática, estatística, ciência da computação e processamento de dados. Reduzir todo esse trabalho a um simples chatbot talvez seja uma das maiores injustiças cometidas contra pesquisadores que dedicaram décadas ao desenvolvimento dessa tecnologia.
A própria IA oferece exemplos impressionantes de aplicações que vão muito além da criação de conteúdo para redes sociais.
O projeto Earth Species, por exemplo, utiliza modelos de inteligência artificial para estudar padrões de comunicação animal. O objetivo é compreender melhor as formas pelas quais diferentes espécies interagem e compartilham informações. Pode parecer algo saído da ficção científica, mas estamos falando de uma iniciativa real.
Considerando que existem milhões de espécies no planeta e que compreendemos apenas uma pequena fração dos mecanismos de comunicação presentes na natureza, ferramentas capazes de identificar padrões podem abrir caminhos importantes para a conservação ambiental e para o estudo da própria inteligência.
Outro exemplo ainda mais impactante é o AlphaFold. Durante décadas, um dos grandes desafios da biologia foi compreender a estrutura tridimensional das proteínas. Essa informação é fundamental para entender inúmeros processos biológicos, desde a formação de tecidos até o funcionamento do sistema imunológico.
Resolver esse problema exigia cálculos extremamente complexos. O AlphaFold conseguiu acelerar esse processo de forma tão significativa que transformou completamente a pesquisa na área e as implicações são enormes.
O conhecimento gerado pelo projeto pode contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos, tratamentos contra doenças infecciosas, pesquisas relacionadas à resistência bacteriana e até mesmo iniciativas voltadas para a redução do impacto ambiental.
Quando cientistas afirmam que a inteligência artificial pode mudar o mundo, é desse tipo de transformação que eles estão falando. Ao mesmo tempo, outras conquistas científicas continuam acontecendo.
A era em que a ficção científica virou realidade
Nós detectamos ondas gravitacionais, fotografamos um buraco negro, sequenciamos o genoma humano, desenvolvemos telescópios capazes de observar galáxias formadas pouco depois do nascimento do Universo. Tudo isso aconteceu enquanto discutíamos a velocidade do Wi-Fi, a duração da bateria do celular e os preços das placas de vídeo. Nenhuma dessas reclamações é ilegítima.
O problema é que o cérebro humano não foi projetado para permanecer maravilhado diante dos avanços tecnológicos.
Existe um conceito da psicologia chamado adaptação hedônica. Esse fenômeno descreve a tendência das pessoas de retornarem rapidamente a um nível relativamente estável de satisfação, independentemente de acontecimentos positivos ou negativos.
Em outras palavras, nós nos acostumamos rapidamente com as coisas boas. A primeira vez que alguém utilizou um aplicativo de transporte provavelmente foi uma experiência memorável. Depois de algumas semanas, chamar um carro pelo celular deixou de ser algo extraordinário e passou a ser apenas uma funcionalidade comum.
O mesmo acontece com praticamente qualquer inovação: quando a novidade desaparece, o benefício se transforma em obrigação e nesse momento, qualquer falha gera frustração.
Se um filme demora alguns segundos para começar em um serviço de streaming, a reação costuma ser imediata. Poucas pessoas se lembram de que, há não muito tempo, baixar um único arquivo podia consumir horas.
A tecnologia reduziu o atrito em inúmeras tarefas cotidianas, entretanto, deu lugar a outros desafios. Hoje convivemos com o excesso de notificações, hiperconectividade, sensação permanente de urgência e uma quantidade gigantesca de informações disputando a nossa atenção.
Menos esforço físico, mais sobrecarga mental
A tecnologia simplificou muitos processos, mas também aumentou a complexidade mental da rotina. Talvez seja justamente por isso que as notícias negativas pareçam tão dominantes. Quando estamos mentalmente exaustos, nossa capacidade de perceber aspectos positivos tende a diminuir.
Isso não significa ignorar problemas reais. Os preços do hardware continuam elevados, a pressão causada pela automação existe e o mercado de trabalho está mudando. Mas talvez seja importante lembrar que as mesmas ferramentas responsáveis por gerar ansiedade também são capazes de produzir avanços científicos sem precedentes.
Existe uma frase famosa atribuída ao escritor Douglas Adams que descreve muito bem a nossa relação com a tecnologia. Segundo ele, qualquer inovação criada depois dos 35 anos parece contrariar a ordem natural das coisas.
Talvez exista um pouco de verdade nisso. A tecnologia continuará mudando, algumas transformações serão positivas, outras serão motivo de preocupação. Mas existe uma lição importante nessa história: a nossa percepção sobre o progresso quase nunca acompanha a velocidade com que ele acontece.
Talvez tudo o que esteja faltando seja um pouco mais de perspectiva, afinal, vivemos em uma época em que computadores de bolso conseguem realizar tarefas que supercomputadores não conseguiam executar há algumas décadas.
A ficção científica se transformou em rotina. E talvez esse seja exatamente o motivo pelo qual deixamos de perceber o quanto ela ainda é extraordinária.
Ajude-nos a seguir crescendo de forma independente e ainda receba benefícios exclusivos: seja membro Diolinux Play.



