Durante os últimos dois anos, o debate sobre inteligência artificial foi dominado por métricas como número de parâmetros, capacidade de raciocínio, qualidade das respostas e desempenho em benchmarks. Mas conforme a IA deixa de ser apenas uma tecnologia experimental e passa a integrar produtos, serviços e operações empresariais, uma pergunta começa a ganhar importância:
Quanto tudo isso realmente custa?
A resposta parece simples, mas está longe de ser. Cada provedor de IA cobra de uma forma diferente. Alguns utilizam preços distintos para tokens de entrada e saída, outros oferecem descontos para dados em cache, há diferenças entre inferência sob demanda e capacidade reservada, sem contar as inúmeras particularidades de cada plataforma.
Em outras palavras, comparar custos entre diferentes fornecedores de IA hoje é muito mais complicado do que deveria ser.
Foi justamente para enfrentar esse problema que a Linux Foundation anunciou a criação da Tokenomics Foundation, uma nova iniciativa voltada para o desenvolvimento de padrões abertos, benchmarks e boas práticas para a economia da inteligência artificial.
A próxima batalha da IA não é técnica, é financeira
Quando as primeiras empresas começaram a experimentar modelos generativos, a prioridade era entender se a tecnologia funcionava. O foco estava em perguntas como:
- O modelo consegue responder corretamente?
- Ele consegue gerar código?
- Pode automatizar tarefas?
- É capaz de substituir determinados fluxos de trabalho?
Agora o cenário mudou. Com aplicações reais chegando à produção, organizações passaram a enfrentar um novo desafio: controlar gastos.
Uma simples consulta a um chatbot consome poucos recursos. Porém, agentes autônomos, sistemas de atendimento, ferramentas corporativas e aplicações empresariais podem executar milhares ou até milhões de chamadas diariamente.
Cada interação gera consumo de tokens, processamento, armazenamento, inferência e uso de infraestrutura. Em escala, esses custos deixam de ser invisíveis e passam a impactar diretamente o orçamento das empresas.
O crescimento promete ser gigantesco
Segundo dados citados pela Linux Foundation, o consumo global de tokens deverá crescer aproximadamente 24 vezes entre 2026 e 2030. A projeção aponta para um volume de cerca de 120 quadrilhões de tokens processados por mês até o final da década.
O crescimento está diretamente relacionado ao avanço dos chamados agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas completas de forma autônoma em vez de simplesmente responder perguntas.
Enquanto um chatbot tradicional realiza uma única interação, um agente pode fazer dezenas ou centenas de chamadas ao modelo para concluir uma tarefa. Reservar uma viagem, organizar e-mails, analisar documentos, gerar código ou interagir com sistemas corporativos são exemplos que multiplicam drasticamente o consumo de tokens.
Ao mesmo tempo, os investimentos em infraestrutura continuam crescendo. Estimativas da indústria sugerem que os gastos globais com infraestrutura de IA podem ultrapassar a marca de US$ 1 trilhão até 2027, enquanto o mercado de inferência deve mais que dobrar nos próximos anos.
O problema da falta de padrões
Hoje, medir custos de nuvem já pode ser uma tarefa complexa. No universo da IA, a situação é ainda mais complicada. Cada fornecedor define seus próprios critérios para cobrança:
- Tokens de entrada e saída podem ter preços diferentes;
- Alguns provedores cobram cache de maneira distinta;
- Há modelos específicos para processamento em lote;
- Existem diferenças entre uso sob demanda e capacidade reservada;
- Nem sempre métricas equivalentes possuem os mesmos nomes.
Isso torna extremamente difícil comparar serviços ou entender exatamente quanto uma aplicação está custando. A Linux Foundation acredita que o setor precisa de uma linguagem comum para discutir a economia da IA da mesma forma que padrões abertos ajudaram a consolidar a computação em nuvem.
Nasce a Tokenomics Foundation
A nova fundação surge em parceria com a FinOps Foundation, organização conhecida por desenvolver metodologias para gestão financeira de infraestrutura em nuvem. O objetivo é criar um conjunto aberto de especificações, métricas e benchmarks que permitam medir custos, eficiência e valor gerado por sistemas de IA.
O projeto pretende atuar em três grandes áreas:
- Produção de tokens;
- Consumo de tokens;
- Monetização e geração de valor através da IA.
Segundo a Linux Foundation, a ideia é conectar equipes técnicas, financeiras e de produto em torno de uma visão compartilhada sobre custos e retorno sobre investimento. A proposta vai além de simplesmente calcular gastos.
A iniciativa pretende responder perguntas como:
- Qual modelo oferece melhor custo-benefício?
- Quando vale utilizar um modelo menor?
- Qual o impacto financeiro de um sistema de agentes?
- Como medir o retorno gerado por uma aplicação baseada em IA?
O primeiro alvo: o padrão FOCUS
O primeiro projeto confirmado da fundação será expandir o padrão FOCUS (FinOps Open Cost and Usage Specification). Para quem não acompanha o universo FinOps, o FOCUS funciona como um formato aberto para padronizar dados de faturamento e consumo em ambientes de nuvem.
A intenção agora é adaptar essa especificação para contemplar modelos de cobrança baseados em tokens.
Se isso funcionar como esperado, empresas poderão comparar gastos de IA entre diferentes fornecedores utilizando uma estrutura comum, em vez de depender das métricas proprietárias de cada plataforma.
Apoio de gigantes da tecnologia
Apesar de ter sido anunciada agora, a Tokenomics Foundation já nasce com apoio de peso. Entre as organizações que declararam suporte ao projeto estão:
- Google Cloud
- Microsoft
- Oracle
- Salesforce
- SAP
- IBM
- Accenture
- KPMG
- ServiceNow
- Booking.com
- JPMorgan Chase
A presença simultânea de fornecedores de infraestrutura, consultorias, empresas financeiras e grandes consumidores de tecnologia mostra que o problema não está restrito aos desenvolvedores. A economia da IA está rapidamente se tornando uma preocupação estratégica para praticamente todos os setores.
Um movimento semelhante ao que aconteceu com os agentes de IA
A criação da Tokenomics Foundation segue uma estratégia que a Linux Foundation já adotou em outras áreas emergentes.
No final de 2025, a organização lançou iniciativas voltadas para governança aberta de tecnologias relacionadas a agentes de IA, reunindo projetos que poderiam acabar fragmentados entre diferentes empresas.
Agora a intenção parece ser semelhante: criar padrões antes que o mercado estabeleça dezenas de modelos incompatíveis entre si.
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