União Europeia pode acabar com a “Lei dos Cookies”
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União Europeia pode acabar com a “Lei dos Cookies”

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Se você já navegou na internet, conhece bem o incômodo: pop-ups intermináveis solicitando consentimento para cookies que aparecem a cada novo site visitado. Essa experiência cansativa para a qual já desenvolvemos uma capacidade automática de clicar no botão certo, pode estar com os dias contados no velho continente. A União Europeia está reconhecendo que sua própria legislação criou um monstro – e agora quer consertá-lo.

A Comissão Europeia iniciou na última semana uma série de reuniões com a indústria de tecnologia para discutir uma reforma na Diretiva de e-Privacy, a norma de 2009 que deu origem à enxurrada de banners que conhecemos hoje. O objetivo é simplificar as diretrizes sobre o uso de cookies e devolver uma navegação fluída aos usuários.

Por que a lei dos cookies “deu errado”?

A intenção original da legislação era nobre: dar aos usuários controle sobre seus dados pessoais, exigindo consentimento explícito para o uso de rastreadores. Na prática, porém, o resultado não foi o esperado.

Como resume Peter Craddock, advogado especializado em dados, “dar consentimento demais basicamente mata o consentimento”. Os usuários, cansados dos pop-ups intrusivos, simplesmente estariam clicando em “aceitar tudo” mecanicamente, sem ler os termos, assim como fazem com os longos contratos de licença de software.

A própria Comissão Europeia admite que o sistema atual “matou o consentimento”. Os banners se tornaram tão omnipresentes e complexos que perderam seu propósito original de proteção à privacidade, transformando-se em meros obstáculos à experiência do usuário.

Como seria a internet sem esses pop-ups?

Várias ideias estão sobre a mesa para resolver o problema. A mais promissora é permitir que os usuários configurem suas preferências de cookies uma única vez, diretamente no navegador. Assim, o navegador comunicaria automaticamente essas escolhas a todos os sites visitados, eliminando a necessidade de pop-ups individuais.

Outra proposta, apoiada pela Dinamarca, é eliminar completamente a exigência de banners para cookies considerados “inofensivos”, como os usados para estatísticas básicas do site. A regra se manteria apenas para rastreadores mais invasivos, especialmente os de publicidade e marketing.

Vale notar que o Brasil, através da ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), já orienta que cookies de estatísticas fiquem desativados por padrão, mostrando uma tendência global de discriminação entre tipos diferentes de rastreamento.

Privacidade vs. simplificação

A revisão da lei promete acirrar os ânimos entre dois grupos poderosos. De um lado, a indústria de tecnologia defende que as regras de cookies sejam incorporadas à GDPR (Regulamento Geral de Proteção de Dados), que adota uma abordagem baseada em risco e permite outras bases legais além do consentimento, como o “legítimo interesse”.

Franck Thomas, diretor de políticas do IAB Europe (associação de publicidade digital), argumenta que a GDPR ofereceria mais flexibilidade, permitindo às empresas “confiar em bases legais mais apropriadas”.

Do outro lado, defensores da privacidade alertam para os riscos de flexibilização. Itxaso Domínguez de Olazábal, da European Digital Rights, adverte que “expandir a categoria de cookies ‘essenciais’ é enganoso, porque arrisca contrabandear analytics ou personalização para anúncios”.

A Comissão Europeia deve apresentar um texto com propostas concretas em dezembro, iniciando um processo legislativo que promete ser conturbado. O tema ganhará ainda mais relevância em 2026, quando a UE planeja apresentar o “Digital Fairness Act”, uma legislação focada em publicidade digital.

A ironia não passa despercebida: a mesma burocracia europeia que criou o problema dos pop-ups agora tenta resolvê-lo. Se bem-sucedida, a reforma pode significar o fim de uma das experiências mais controversas da internet moderna. Mas o caminho até lá será uma verdadeira corda bamba entre a simplificação e a proteção de dados.

Uma coisa é certa: após mais de uma década de banners intrusivos, a internet como a conhecemos pode estar prestes a dar um importante passo rumo à simplicidade que sempre prometeu, mas nunca totalmente entregou.

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